A DOR PODE CAUSAR DEPRESSÃO?

Quando falamos em depressão, qual a imagem que nos vem automaticamente à cabeça?

Se você imaginou uma pessoa vivendo mais reclusa, mais solitária, triste, com grande mal estar relacionado à sua existência, talvez esteja ainda muito conectado ao que o senso comum diz sobre a depressão e não necessariamente sobre ao que ela realmente pode provocar ou por qual razão pode ser provocada, que são múltiplas, únicas e resultantes de experiências individuais de cada pessoa.

Quando notamos que esse distanciamento, isolamento e postura relacionada à vida pode também estar ligada ao processo em que a dor se manifesta como crônica, durável e intensa, o que relaciona, portanto, a depressão com a dor, entendemos que a dicotomia posta entre corpo e mente é superada quando observamos a correlação que existe com a dor sentida pelo corpo com aquela sentida pela mente.

No Brasil, em um estudo coordenado pelo Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, reforçou isso que há muito já era cogitado: pelo menos 50% das pessoas adultas diagnosticadas com transtornos de humor também apresentam dores crônicas. Muitas, inclusive, são tratadas no mesmo hospital pelas duas frentes médicas: psiquiatria e clínica.

Entre as pessoas que participaram do estudo, os números apresentados na pesquisa revelam que logo depois da dor crônica, as doenças respiratórias também conduziram à depressão 33% dos participantes. Logo atrás, ficam as doenças cardiovasculares, com 10%; a artrite, com 9% e, por fim, o diabetes, que leva 7% dos seus pacientes também para a clínica de psiquiatria.

Já quando falamos de transtorno de ansiedade, também há forte correlação com doenças crônicas e dores crônicas, que acabam por comprometer a saúde mental de 45% dos entrevistados, enquanto as doenças respiratórias atingem com a ansiedade 30%; as doenças cardiovasculares com 11% e a hipertensão, com 23%.

E essa correlação também pode percorrer, infelizmente, outras vias. Uma pessoa que apresenta crises de ansiedade ou depressão também pode desenvolver, com o passar do tempo, dores crônicas. Isso, por fim, pode gerar um grande ciclo vicioso, desencadeando crises de repetição interdependentes e com solução cada vez mais dependente de processos complementares, como aquelas que também suportam atenção psicológica ou terapêutica.

Assim, embora a dor seja entendida como

“uma experiência sensorial e emocional desagradável que é descrita em termos de lesões teciduais, reais ou potenciais. A dor é sempre subjetiva e cada indivíduo aprende a utilizar este termo através de suas experiências traumáticas” (TEIXEIRA, 1998).

evidencia-se que quanto maior for o suporte emocional e amparo multidisciplinar, maior é a oportunidade de haver um quadro de melhora consistente com o devido acompanhamento, ainda que ele seja algo que deva perdurar durante todo o tratamento, seja o da dor, seja o da depressão.

Em uma pesquisa conduzida de 1993 a 1994 com 92 pacientes de pelo menos 16 anos que passaram pelos ambulatórios de oncologia também do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, a USP, foi notado que essa interdependência entre dor e depressão se evidenciava também entre os pacientes que apresentavam o câncer, mas que apresentavam dores mínimas ou moderadas.

Hoje há unanimidade quando se analisa que

“dor e depressão caminham juntas e uma agrava a outra. Observou-se […] que os escores de depressão eram significantemente mais elevados no grupo de doentes com dor, comparados aos sem dor, e que à dor de intensidade maior correspondia escores mais altos de depressão. Como os aspectos biológicos, emocionais, culturais, entre outros, participam da interpretação do fenômeno doloroso, é de importância máxima avaliar e tratar cada um deles, quando o objetivo é o controle da dor”(PIMENTA; KOIZUMI; TEIXEIRA, 2000).

Dessa forma, é mais do que importante adotar condutas clínicas que observem a interação entre especialidades e, sobretudo, um entendimento global do que é ser um ser humano. É evidente que esses dados também são alcançados e reforçados por um sistema cultural que privilegia o corpo em detrimento da mente.

No entanto, observamos que, com isso, os problemas decorrentes dessa dicotomia entre corpo e mente no exato momento em que nos deparamos com os efeitos interdependentes que existem dessa correlação, e que podem ir muito além do que essa relação aqui apresentada.

É também necessário falar que essa dependêcia pode e é reforçada positivamente através dos esportes coletivos, de grupo, em que todos tem por objetivo formar elos de afetividade – seja através do esporte ou em razão dele – que substituam os simples que envolvem apenas o exercício do ímpeto competitivo.

Assim, embora realmente exista o quadro associativo, é essencial que se discutam e que se pautem formas preventivas de tratamento que busquem a interação e o envolvimento com pessoas que tanto se enquadrem no mesmo grupo, quanto com aquelas que através do convívio busquem também através da socialização formas de superação de seus desafios pessoais, únicos e exclusivos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

TEIXEIRA, M.J. Tratamento neurocirúrgico da dor. In: RAIA, A.A.; ZERBINI, E.J. Clínica cirúrgica Alípio Correa Neto. 4ed. São Paulo, Sarvier, 1988. v.2. cáp.62, p.541-72.

PIMENTA, C.A.; KOIZUMI, M.S.; TEIXEIRA, M.S. Dor crônica e depressão: estudo em 92 doentes. In: Rev. Esc. Enf. USP, v.34, n.1, p. 76-83, mar. 2000.

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